Ao aceitar a proposta do Grêmio e tornar-se executiva de futebol feminino do clube, Bárbara Fonseca, indiretamente, inaugurou um novo tempo no departamento de futebol feminino do Cruzeiro: um tempo em que o Maior de Minas precisará ser capaz de pensar e executar futebol feminino sem a sua presença.
No Cruzeiro desde que a modalidade passou a existir por aqui, em 2019, Fonseca foi o rosto — e mãos, pés, coração, pulmão e cérebro — do departamento de futebol feminino do clube, capitaneando e mantendo a modalidade não somente viva, como também alcançando os seus objetivos esportivos, no momento mais delicado da história centenária desse gigante do futebol brasileiro.
Em 2022, na Era Cruzeiro SAF, outro nome igualmente relevante surge para liderar o projeto: Kin Saito. Trazida por Ronaldo Nazário, majoritário da SAF do clube à época, Saito é o rosto — e mãos, pés, coração, pulmão e cérebro — a frente do período de profissionalização do futebol feminino do Cabuloso. Presenteada com um contexto muito mais favorável do que tinha em mãos a sua antecessora, Kin e sua equipe, composta, entre outras figuras, também por Bárbara, eleva o Cruzeiro a um patamar de referência esportiva, estrutural e administrativa no futebol feminino brasileiro, alcançando resultados esportivos maiores e melhores temporada após temporada.
Quatro anos depois, classificado à Libertadores da América pela primeira vez em sua história, nenhuma dessas duas figuras, centrais para o desenvolvimento do projeto e alcance de resultados esportivos como este, fazem mais parte do departamento e Pedro Lourenço, atual majoritário da SAF do clube, escolheu a mineira Luiza Parreiras para ocupar o cargo de gerente de futebol feminino do Cruzeiro.
Parreiras chega à Toca da Raposa I com pelo menos dois desafios pela frente: provar-se profissionalmente após um trabalho aquém das expectativas no Internacional de Porto Alegre e lidar com a pressão das sombras de Bárbara e Kin, duas gigantes da curta, porém muito bem sucedida, história das Cabulosas até aqui. Tudo isso combinado a uma polêmica vazia e desnecessária, mas que existe e adiciona uma camada de dificuldade a mais ao seu trabalho.
Antes de chegar ao Internacional, em agosto de 2024, Luiza trabalhou por cinco anos no América-MG, onde ocupou os cargos de coordenadora, supervisora e, finalmente, gerente de futebol. Pelas Spartanas, alcançou feitos importantíssimos e históricos para o clube, como o acesso à elite do futebol feminino nacional em 2023 e a permanência em 2024. Além das conquistas com a equipe profissional, Parreiras também é citada como peça-chave para o desenvolvimento da categoria de base de futebol feminino do América-MG, passo importante que o Cruzeiro precisa dar, de forma firme e constante, caso de fato queira se consolidar como uma das principais equipes da modalidade no país.
Os grandes resultados esportivos conquistados junto à equipe mineira, entretanto, não se repetiram em Porto Alegre. O Internacional, que vive em queda temporada após temporada desde 2022, quando foi vice-Campeão Brasileiro, se classificou à Libertadores, mas perdeu boa parte do seu time titular para a temporada seguinte e, na maioria dos casos, sem custos de transferência, perdeu o Campeonato Gaúcho de 2024 para o seu maior rival e em 2025, além de brigar contra o rebaixamento na Série A1 por boa parte da competição, sequer alcançou à final do Estadual, caindo para o modesto Juventude nas semis.
Além dos resultados esportivos muito aquém daquilo que se espera de uma equipe como o Inter, a montagem de elenco também desagrada: a sensação geral é de que, ano após ano, o elenco das Gurias Coloradas é enfraquecido, com mercados pouco criativos no que diz respeito a contratações, frágeis e incapazes de segurar suas principais peças perante ao assédio do mercado nacional e um subaproveitamento da sua ótima categoria de base, que forma atletas interessantes e de bom potencial com certa frequência, mas que por motivos que careceriam de esclarecimentos por parte das comissões técnicas da equipe principal, por vezes não são oportunizadas em suas posições de origem tão pouco ganham a sequência necessária para se desenvolverem no elenco profissional.
É bom e justo que se diga que esses problemas antecedem a chegada de Luiza em Porto Alegre, mas é fato também que sua passagem pelo clube não foi capaz de causar grandes alterações nesse cenário e, com o elenco montado para 2026 e o que vimos do trabalho de Salgado à frente da equipe até aqui, o Inter dá sinais de que seguirá brigando numa prateleira inferior no futebol feminino nacional.
Anunciada pelo Cruzeiro em 28 de janeiro, Luiza encontrará no Maior de Minas contexto muito mais favorável do que encontrou no Colorado em meados de 2024: um dos elencos mais completos e competitivos do futebol brasileiro na atualidade, uma comissão técnica liderada por Jonas Urias e um dos melhores treinadores do país e que está no clube desde setembro de 2023, além de uma torcida engajada nas redes e nas arquibancadas, que se faz presente dentro e fora de Minas Gerais para apoiar as Cabulosas.
Em relação ao orçamento destinado ao futebol feminino, embora o Cruzeiro esteja longe de ter as principais cifras dentre os postulantes aos grandes títulos da temporada brasileira, Parreiras terá em suas mãos valores muito mais adequados para trabalhar, a saber: R$15 milhões do Cruzeiro contra R$7,53 milhões do Internacional em 2025 e R$16 milhões do Cruzeiro contra R$12,4 milhões do Internacional em 2026. Os valores destinados ao futebol feminino do Inter foram informados oficialmente pelo clube em seus balanços.
Diante disso, o que eu espero de Luiza Parreiras é que, ao retornar a sua cidade natal, ela reencontre, também, os caminhos do sucesso esportivo que teve em terras mineiras antes de sua passagem pelo sul do país. Enquanto muitos apontaram questões de cunho pessoal e privado de Luiza como motivo para não contratá-la, o que me interessa discutir e o que me causa preocupação é a sua capacidade de nos entregar o que precisamos: futebol feminino de excelência dentro da realidade orçamentária do clube.
Até o presente momento, mesmo com todos os desafios enfrentados ora por Bárbara, ora por Kin, a realidade é que o Cruzeiro entre 2019 e 2025 deu passos esportivos para frente e somente para frente: do acesso à primeira divisão nacional em 2019 ao vice-campeonato desta mesma divisão em 2025, cada temporada do Cruzeiro superou esportivamente a anterior, feito proporcionado pela evolução gradativa e constante do orçamento, estrutura, comissão técnica e elenco do clube, evolução esta que tem as digitais de Fonseca e Saito.
Nesse sentido, Parreiras tem a missão de entregar em 2026 mais um passo à frente e qualquer coisa diferente disso, diante da sombra deixada no clube pelo trabalho de excelência de suas antecessoras combinada ao contexto bastante favorável deixado por elas para quem quer que assumisse o cargo agora, seria decepcionante. A ela, desejo sorte e sucesso à frente do nosso querido Cruzeiro de Garotas, que nunca esteve tão bem e próximo de levantar taças relevantes em toda sua história.

