O empate contra o Mirassol na última rodada do Brasileiro trouxe alguns debates relevantes sobre a postura do Cruzeiro em campo, a falta de substituições por parte de Leonardo Jardim, que utilizou apenas 2 das 5 mudanças possíveis, e muitas críticas pela ausência de Gabigol, que assistiu a todo o confronto do banco. A pergunta é, Jardim merece críticas contundentes pelas escolhas ou vale passar um pano e tentar contextualizar as decisões tomadas?
Com tempo de trabalho e um Wanderson, Jardim transformou um catado em time. Os maiores reforços foram as saídas de Marlon, Dudu, e posteriormente Alexandre Mattos, que desanuviaram um ambiente tóxico. Mas o resultado não veio da noite para o dia. O empate por 1 a 1 contra o São Paulo, que marca a mudança de postura celeste no ano, foi a oitava partida do Mister no comando. E até então, nosso time somava apenas uma vitória, três empates e quatro derrotas.
E onde Gabigol entra nesta história? Bem, ele começou a trajetória de Jardim como titular absoluto, apenas não tinha jogado na estreia do português contra o Democrata, porque estava suspenso. Nos 6 jogos como titular, marcou 2 gols, contra Mirassol e Mushuc Runa. E a partida contra o São Paulo, marcou também a ascensão de Kaio Jorge, que marcou ali seu primeiro gol no ano e emplacou desde então 16 gols e 5 assistências, 21 participações diretas em gol em 23 jogos.
O mais importante no futebol, sempre foi e será o sucesso coletivo, acima de qualquer individualidade.
O time encaixou com Matheus Pereira e Kaio Jorge, contando com Christian e Wanderson nas pontas, cada um com sua função específica. O Cruzeiro chegou a ficar 16 jogos invicto, com 11 vitórias e 5 empates no período. Gabriel atuou 5 vezes como titular nesta sequência, entrou no segundo tempo em 7 oportunidades, ficou no banco sem ser acionado em 2 jogos e não foi relacionado em 2 partidas da Sul-Americana após a eliminação.
E seus números foram muito bons neste recorte, 4 gols e 4 assistências, mesmo com a minutagem baixa. Sem entrar em muitos detalhes sobre o tamanho que teve aquele gol decisivo no jogo épico contra o Flamengo. Gabriel se tornou o reserva de Matheus Pereira, na ótica de Leonardo Jardim. E porque não dar mais minutos para Gabriel na vaga do camisa 10? Porque o MP também está jogando muita bola. Os números não são tão voluptuosos, 3 gols e 6 assistências, mas é inegável o quanto ele faz a diferença, sendo a cola que dá fluidez entre os setores no sistema de jogo.
Gabi, antes de um excelente jogador, é um atleta de uma inteligência acima da média. Em campo, para se posicionar e interpretar espaços e também fora dele, basta observar a clareza das suas entrevistas e como se tornou um fenômeno midiático mesmo nos momentos em que não está brilhando. E esta inteligência, aliada à maturidade, tem feito com que o jogador seja paciente. O comportamento de Gabriel até o momento é extremamente profissional, respeitando a hierarquia como tem que ser.
Alguns torcedores (talvez fãs do jogador) e parte da mídia (alguns por despeito, afinal Gabriel preferiu o Cruzeiro em detrimento a seus clubes de coração) não conseguem, ou não querem entender algo elementar: Gabigol não está no banco porque está mal, ele está no banco porque existem jogadores em um momento técnico melhor. E antes que alguém critique Wanderson, são atletas de características e funções completamente diferentes.
Voltando a Leonardo Jardim, cabe ao treinador montar o melhor time possível, acomodando seus melhores jogadores? Sim. É importante ter variação de sistema tático, para que nossa equipe não se torne previsível? Sem dúvida. Mas a partir do momento que o Cruzeiro achou um jeito eficiente de jogar, você como torcedor, gostaria de ver o técnico mantendo a estrutura ou querendo mudar com frequência?
A resposta é óbvia, se Jardim mexesse no time vencendo seria chamado de Professor Pardal, como tantos outros na nossa história. O grande ponto é que o Cruzeiro perdeu rendimento nas últimas rodadas. Podemos citar o desgaste, a falta de alternativas de qualidade no elenco, a lentidão da diretoria no mercado, mas os números são crueis: dos últimos 15 pontos no Brasileirão conquistamos apenas 5, a 14ª campanha neste curto delineamento.
Fica clara a necessidade de que o treinador ache um esquema tático alternativo, talvez contemplando a presença do trio Matheus Pereira, Gabigol e Kaio Jorge, que não funcionou até o momento. Jardim tem total competência para isso e os jogadores são técnicos e associativos. Mas para isso, precisamos ter paciência, porque os times se montam com treinamento, trabalho e repetição.
Lembremos do horroroso calendário desta temporada, em que os atletas tiveram 15 dias de férias, uma intertemporada e voltamos a jogar no dia 13 de julho. Foram 9 jogos em sequência, meio e fim de semana sem descanso, era impossível treinar. Agora o calendário oferece mais tempo, porque fomos incompetentes na Sula. E o jogo contra o Mirassol foi ruim, mas pelo menos salvamos um ponto com um time esfacelado pelos desfalques e frente a um adversário invicto em seus domínios.
É óbvio que ver Gabigol no banco e Lautaro entrando em campo soa como um soco no estômago de cada torcedor, pelo potencial demonstrado por cada um dos atletas na carreira ou mesmo na atual temporada. Mas pelo contexto do nosso time no jogo, fazendo cera desde o primeiro tempo, pouco agressivo com a posse, era mais provável que Gabi fosse determinante ou mal tocasse na bola? Eu sei e você também sabe que a segunda opção era a mais provável.
Tem quem ache que contratar Gabriel foi um erro. Penso diferente, visto que um atacante de 28 anos e 250 gols na carreira não se deixa passar, caso você tenha condição de pagar e o Cruzeiro tem, em dia ao contrário de outros por aí. O salário é alto, como a de vários outros jogadores do elenco também é. O futebol está inflacionado em todas as pontas do ecossistema, mas tenho certeza que Pedro Lourenço não tem uma gota de arrependimento por ter contratado o camisa 9.
Gabigol tem tudo para fazer muito mais nos próximos meses e anos, com Jardim, Pereira, Kaio, Sinistera e muitos outros. O cruzeirense está desacostumado a ter jogador bom no elenco, quiçá no time titular, ainda mais na reserva. A crise foi muito intensa, mas as coisas estão voltando ao seu lugar. O remédio para todos os males no futebol são os três pontos e vencer o Inter no próximo sábado é tudo que precisamos para que este texto faça mais sentido pra você. E pra mim também.

