No início da tarde de uma terça-feira de Julho, o Cruzeiro e o cruzeirense viviam a expectativa de conhecer o primeiro adversário da equipe na Copa do Brasil, torneio que retorna ao calendário do futebol feminino em 2025 e do qual o clube celeste é o maior campeão no futebol masculino.
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Se no futebol de garotos a Copa do Brasil parece ser um caminho mais curto e compatível com a profundidade do plantel e estágio de trabalho em que se encontra a equipe de Leonardo Jardim para vislumbrar o tão sonhado reencontro do clube com uma taça nacional depois de tudo que nos ocorreu nos últimos anos, no futebol de garotas a competição reaparece justamente no momento em que o clube parece ter chances reais de, num torneio de tiro curto, vislumbrar o seu primeiro encontro com uma taça nacional – e justamente essa, que ninguém conhece, ama e valoriza tanto quanto o cruzeirense.
Há coisas que parecem escritas nas estrelas.
Eram trinta e um adversários possíveis entre equipes das três divisões nacionais do futebol feminino brasileiro e o Cruzeiro de Garotas seria franco favorito frente à esmagadora maioria, faria confrontos equilibrados diante de quatro ou cinco desses oponentes e se veria em desvantagem em apenas um cenário: caso o adversário sorteado fosse o Sport Club Corinthians Paulista.
Há coisas que parecem absolutamente improváveis.
Bolinha sorteada, papelzinho cuidadosamente desenrolado para a câmera da transmissão e lá estava ele novamente: o improvável.
Apesar de muito curta, nossa história parece repleta de encontros com ele, a começar do nosso começo. Veja só, nós nascemos em 2019, ano em que se torna obrigatório que todos os clubes que disputem a elite do futebol brasileiro masculino mantenham uma equipe de futebol feminino e ano em que o Cruzeiro se vê, pela primeira vez em sua história quase centenária, fora deste grupo seleto.
O rebaixamento do Cruzeiro no futebol masculino é o pontapé inicial em um processo que por muito pouco – muito pouco mesmo – não findou a existência do clube, e não é curioso que um número, um ano, possa carregar significados tão antagônicos dentro da mesma instituição? 2019, o ano do nascimento e o ano da morte. Mais que curioso, é improvável.
Há pouca coisa que impediria o fim do Cruzeiro de Garotas já no primeiro dia de janeiro de 2020. Sem as amarras da obrigatoriedade, o projeto seria descartado naquele contexto falimentar em que o clube se encontrava sem encontrar resistência, a não ser que, dentro do quadro de funcionários do clube, houvesse uma pessoa igualmente apaixonada pelas Cinco Estrelas e pelo futebol feminino, competente, abnegada e resiliente, disposta a fazer o possível e o impossível pela modalidade dentro do clube.
Ter essa pessoa justamente neste momento do clube soaria como um Deus ex machina, aquele recurso literário que apresenta uma intervenção sobrenatural ou divina para solucionar um problema de forma abrupta e encerrar a história. Se comum e um tanto insatisfatório na ficção, no Cruzeiro da vida real seria providencial e improvável, mas lá estava Bárbara Fonseca.
A Lei da SAF é instituída em 2021, ano que marca o centenário do Cruzeiro e o anúncio de que Ronaldo Nazário de Lima havia adquirido 90% das ações da Sociedade Anônima do Futebol do clube. Entre erros e acertos, o pentacampeão mundial consegue algo altamente improvável em sua gestão – uma ruptura de mentalidade dentro do clube com relação ao futebol feminino.
Sob o comando da diretora Kin Saito, trazida por Ronaldo para encabeçar o departamento, o futebol feminino profissional do Cruzeiro passa a ser encarado e administrado assim: como futebol profissional. Desde o mais básico, como a adequação dos contratos de nossas atletas em conformidade com a Lei Pelé, ao mais complexo, como contar com nomes como Byanca Brasil e Jonas Urias na construção do seu projeto, o Cruzeiro de Garotas passa a caminhar na contramão da estrada trilhada pela maior parte dos clubes brasileiros no que tange à modalidade e de forma quase meteórica passa a figurar ao lado – talvez alguns poucos passos atrás – das principais equipes brasileiras no futebol feminino, mesmo tendo uma desvantagem geográfica estratégica para elas.
Encurtar essa distância em tão pouco tempo é pra lá de improvável, mas quem fizer o exercício de comparar plantéis, comissões técnicas, estruturas e folhas salariais verá que cá estamos, mais uma vez, frente à frente com ele.
E por falar nele, algo igualmente improvável seria assumir que um elenco totalmente reformulado poderia dar qualquer tipo de resultado esportivo relevante em uma questão de meses.
Por mais longevo que seja o trabalho da sua comissão técnica, é improvável que um grupo que teve mais de uma dezena de chegadas e mais de uma dezena de saídas consiga assimilar rapidamente as ideias do seu comandante e aplicá-las em confrontos de nível nacional que acontecem uma vez a cada três dias, talvez só não seja mais improvável que assimilar e aplicar essas ideias conquistando resultados positivos partida após partida e construindo um período de quatorze jogos de invencibilidade diante de adversários da elite do nosso futebol.
Ainda assim, lá estava o Cruzeiro de Garotas, de mãos dadas com o improvável, na liderança isolada e antecipada do Campeonato Brasileiro pela primeira vez em sua história, mesmo com três ou quatro equipes mais preparadas que ele para ocupar esse lugar.
Das dezessete partidas disputadas esse ano pelas Cabulosas, a equipe amargou derrotas em apenas duas, um aproveitamento assombroso e improvável diante do estágio desse trabalho. Curiosamente, as duas derrotas frente ao mesmo adversário – aquele que teremos pela frente novamente no próximo dia 06.
As Brabas não carregam esse apelido por acaso: a modalidade foi retomada no Corinthians em 2016 e de lá pra cá assistimos uma dinastia nacional e continental ser construída, com todo o mérito de quem não somente saiu na frente, mas também soube estabelecer bases sólidas de trabalho em um momento em que quase ninguém parecia estar atento.
2016 foi também a última vez em que o Corinthians foi eliminado de uma competição nacional antes da final; de lá pra cá a equipe foi campeã ou vice de tudo que disputou nacionalmente. Imaginar que esse Corinthians cairia numa terceira fase de Copa do Brasil, torneio do qual é o atual campeão, seria altamente improvável.
E lá estão Cruzeiro de Garotas e o improvável, novamente lado a lado.
No mesmo palco em que aplicou uma improvável goleada de sonoros sete gols contra dois das Brabas do Timão, na sua única vitória neste confronto em toda a história, as Cabulosas têm uma dura missão: eliminar uma equipe que é superior à nossa em todos os parâmetros.
Há coisas que parecem escritas nas estrelas.
Há coisas que parecem absolutamente improváveis.
Algumas de nossas atletas correm contra o tempo para se recuperarem de lesão e estarem aptas para essa partida enquanto outras percorrerão quilômetros e quilômetros para se juntarem ao grupo o mais rápido possível ao final da Copa América, já o torcedor do Cruzeiro de Garotas terá que fazer as duas coisas para conseguir estar presente no Alçapão do Bonfim às 19h30 de uma quarta-feira, dia útil na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
É improvável que esses três grupos sejam totalmente bem-sucedidos em suas missões e a verdade é que nem todas as nossas atletas em processo de transição devem estar aptas para disputar essa partida, assim como o desgaste da competição continental deve limitar a minutagem das nossas atletas que neste momento defendem suas Seleções e as arquibancadas do Castor Cifuente devem estar bem mais vazias do que todos nós gostaríamos.
Mais uma vez, é o Cruzeiro de Garotas e o seu povo frente à frente com o improvável.
A essa altura da vida, confesso, o improvável nos parece inevitável.
Eu não gostaria que fosse assim, mas é.
Sempre nós e o improvável.
Sempre o improvável e nós.
Mais uma vez, vamos buscá-lo.

