O trabalho de Leonardo Jardim está apenas começando no Cruzeiro, mas desde o primeiro dia na Toca da Raposa o português não teve vida fácil. Por falhas individuais dos atletas em jogos, a novela de transferência de Matheus Pereira, a eliminação nos pênaltis para o América-MG… Provações não faltaram e somando tudo isso à urgência da torcida por resultados, o treinador enfrentará um dos maiores desafios da carreira.
Não é que a trajetória de Jardim tenha sido tranquila até desembarcar no Brasil. Certamente era muito mais complicado comandar os portugueses Camacha, Chaves e Beira Mar, com orçamentos irrisórios, no início de carreira. Mas no Cruzeiro, Leonardo Jardim terá ao seu lado – e também o cobrando – uma torcida gigantesca e apaixonada. Que ele só vivenciou em Olympiakos, Sporting e Al Hilal.
No trabalho de maior sucesso, no Monaco, Jardim não contava com pressão das arquibancadas no Principado, mas vale contextualizar o momento do clube. O Monaco havia passado dois anos na segunda divisão francesa e no período foi adquirido pelo russo Dmitry Rybolovlev. Claudio Ranieri foi contratado para ser o treinador e conseguiu o acesso em 2013.
Aí o russo abalou o mercado europeu buscando James Rodriguez, Radamel Falcao, João Moutinho e Geoffrey Kondogbia por altas cifras. Foram mais de 150 milhões de euros investidos e o clube conseguiu ser vice-campeão francês logo no seu retorno à elite. Neste momento, surge um problema inusitado: o presidente Rybolovlev perdeu mais da metade do seu patrimônio (quase 5 bilhões de dólares) por causa de um divórcio.
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E aí chega Leonardo Jardim, no meio de 2014. James é vendido para o Real Madrid após brilhar na Copa, Falcao é emprestado para o Manchester United, devido ao alto salário, e o artilheiro da temporada anterior, Emanuel Riviére, foi vendido para o Newcastle. Menos da metade do dinheiro arrecadado foi reinvestido no futebol, o que obrigou Jardim a ter paciência para encontrar opções mais baratas, fazer apostas e desenvolver atletas.
A grande contratação foi Bernardo Silva, que na época tinha apenas 3 jogos pelo time principal do Benfica. Também chegaram o volante Bakayoko, do Rennes, e o zagueiro Wallace, formado no Cruzeiro e emprestado pelo Braga. Jardim aproveitou bem a base de time que já existia e jogando num 4-3-3 terminou em terceiro lugar na Ligue 1, alcançando também as quartas de final da Champions League, caindo para a Juventus num placar agregado de 1×0, com gol de pênalti de Vidal.

O ponto forte deste primeiro Monaco de Jardim foi o sistema defensivo, algo que o Cruzeiro precisa urgentemente acertar. Em 55 jogos na temporada, os monegascos sofreram apenas 35 gols, uma média espetacular. O grande trunfo era o trio de meio-campo, com a experiência de Toulalan, a intensidade de Kondogbia e a técnica de Moutinho. O ataque não brilhou, foram apenas 68 gols marcados, mas revelou Anthony Martial, negociado a peso de ouro com o Manchester United.
Kondogbia, Kurzawa, Carrasco e até reservas como Abdennour e Ocampos também foram bem vendidos ao fim da temporada. Falcao foi novamente emprestado, agora para o Chelsea. Vale destacar a relação próxima do dono do Monaco com o empresário Jorge Mendes, um dos principais do futebol mundial. Isto permitiu a contratação de jogadores que brilhariam, como Fabinho e Bernardo, mas também rendeu decepções, como Ivan Cavaleiro e Gil Dias.
O segundo ano de Leonardo Jardim mostrou que as coisas no futebol nem sempre são lineares. A equipe repetiu a terceira posição na Ligue 1, mas não passou das qualificatórias da Champions e fez feio na fase de grupos da Liga Europa. A defesa, que era um ponto forte, se desmanchou, com 72 gols sofridos em 52 jogos. Já o ataque melhorou de produção, com 86 bolas nas redes adversárias.

Mas faltava um salto de qualidade para o 4-2-3-1 idealizado funcionar bem. As maiores apostas ofensivas não brilharam, Traoré e Carrillo. Até o veterano Vagner Love foi contratado na busca por um homem-gol. Os experientes Ricardo Carvalho e Toulalan caíram de nível, Fábio Coentrão não se firmou… Mas vale destacar a contratação de Lemar por 4 milhões de euros e as primeiras oportunidades para Kylian Mbappé. O jogador mais jovem a estrear e a fazer gol pelo Monaco, recordes que eram de Thierry Henry.
A tempestade perfeita aconteceu no terceiro ano. Um time inesquecível para os torcedores, que conquistou o Campeonato Francês com 30 vitórias em 38 jogos, 95 pontos conquistados, 7 a mais que o vice PSG. E ainda chegou às semifinais da Champions League, caindo frente a Juventus após eliminar Manchester City e Borussia Dortmund. Nesta temporada 2016/17 foram 63 jogos, com absurdos 159 gols marcados e 74 sofridos.

A montagem deste time é que chama atenção. Foram contratados três titulares para a defesa, o zagueiro Glik e os laterais Sidibé e Mendy. Jemerson ganhou a posição na zaga e Fabinho saiu da lateral para virar titular no meio, ao lado de Bakayoko que deslanchou. Bernardo e Lemar eram os meias abertos de um 4-4-2 que ajudavam muito no momento defensivo e criavam para a dupla Falcao e Mbappé. Uma cria da base e um matador que vinha de dois anos ruins na Inglaterra.
Um time não se forja do dia para a noite e um dono com dinheiro não resolve todos os problemas, como todo cruzeirense viu nos últimos meses. Se não houver um trabalho coletivo bem feito, grandes talentos se tornam jogadores comuns. O que este texto mostra é como Leonardo Jardim se provou um treinador competente quando teve tempo e boas condições de trabalho. Achando soluções no mercado, na categoria de base e até adaptando atletas a novas funções.
O próprio Jardim fez referência a este processo em sua primeira coletiva como treinador do Cruzeiro. “Muitas vezes perguntam, o melhor trabalho foi em 2017, no Monaco. Isso foi o mais fácil. O mais difícil foi em 2015, montar a equipe. Todos os trabalhos têm que ter um padrão, tem que ter uma retaguarda de trabalho antes do sucesso. Nunca o sucesso antes do trabalho, é sempre o trabalho e depois o sucesso”.
Que fique a lição para os jogadores e o entendimento para nós, torcedores. Os erros e acertos de Pedro Lourenço e Alexandre Mattos nos levaram a um momento de reflexão amarga fora da final estadual e um mês sem jogos oficiais. No entanto, com Leonardo Jardim, temos a possibilidade realista de ver o Cruzeiro novamente competitivo, como um time deve ser. Que o treinador tenha respaldo, todos façam seu trabalho e possamos comemorar o sucesso no fim do ano.

