Em entrevista exclusiva ao Central da Toca e à Samuca TV, nesta sexta-feira (4), em Vitória, no Espírito Santo, Leonardo Jardim abordou vários temas sobre o Cruzeiro. O treinador celeste fez questão de frisar que está totalmente imerso ao projeto desenvolvido no clube celeste e pretende contar com jogadores – que já estão no grupo ou ainda vão chegar – que comprem essa ideia.
Ao longo da entrevista com Samuel Venâncio, Jardim também explicou que tem como responsabilidade pensar na reestruturação financeira do Cruzeiro. Sendo assim, juntamente com a diretoria, o técnico português traçou um plano de ação no mercado para reforçar o time de forma inteligente, visando a valorização de seus ativos futuros.
O Cruzeiro pretende contratar atletas mais jovens, que consigam dar o retorno técnico imediato e que tenham potencial de revenda.
Veja abaixo as respostas de Leonardo Jardim.
Relação com Pedrinho
“Nossa relação pessoal e familiar, principalmente, as duas famílias se dão muito bem, se respeitam e vai muito além do futebol. Às vezes, eu brinco com ele (Pedrinho), que não sei até quando vai a nossa relação em termos profissionais de futebol, mas, com certeza, nossa amizade vai se prolongar ao longo do tempo e entre as famílias também. Temos valores semelhantes e cursos de vida semelhantes também, que são importantes”.
Processo de mudança para o Brasil e aceite do Cruzeiro
“Eu vou ser sincero. Eu fiz a minha carreira na Europa e, logo depois, decidi ir para a Ásia. Inicialmente, com boas condições financeiras, mas depois gostei de estar na Ásia e acabei por continuar lá por três anos e meio. Depois, tinha como objetivo vir para o Brasil e acabou conciliando com a minha saída do Al Ain por motivos de saúde da minha esposa. O convite do Cruzeiro foi em fevereiro. Acabei conciliando as duas situações e acabei tendo a experiência que eu tanto queria antes de encerrar a minha carreira. Já trabalho com brasileiros há mais de 30 anos, já tinha vindo ao Brasil 25 vezes e, por isso, consegui conciliar tudo. É como o Pedrinho disse, nesta fase da minha vida não é o motivo financeiro que me leva aos países ou clubes, são os meus objetivos pessoais. Vim ao Brasil pela minha experiência. Eu venho mais usufruir do futebol brasileiro do que fazer minha carreira”.
Virada de chave no time
“No Brasil, nós somos muito emocionados. De forma estratégica, começamos bem o campeonato (Brasileiro) contra o Mirassol, depois tivemos uma expulsão contra o Inter com 15 minutos, o que não nos permitiu sermos competitivos nesse jogo, e depois o jogo contra o São Paulo. Com certeza que escolhi a melhor equipe e tentando adaptar a minha forma de estar. A partir do jogo contra o São Paulo, a equipe começou a ter um norte e um desenvolvimento ofensivo que me agradava. Começou a ter um princípio que me agradava, mas dentro daquilo que eu penso e acredito no futebol. Na Sul-Americana, nós sempre utilizamos um misto de jogadores e isso não nos permitiu ser competitivos. A partir do São Paulo, fiz mudanças chave, mas não poderia deixar de jogar a Sul-Americana. Muitas vezes, o treinador tem que provar aquilo que diz. A equipe utilizada na Sul-Americana não era capaz de levar o Cruzeiro onde a gente pretendia. A gente precisava de outra forma de jogar e ganhar os jogos e foi isso que criamos dentro do campeonato (Brasileiro) e na Copa do Brasil”.
O que seria um projeto vencedor
“Em termos de futebol, para mim, tem que ser sempre um projeto que tenha um processo. Não acredito em uma geração espontânea, que as coisas aconteçam com um piscar de olhos ou em mágica. Temos que acreditar em um processo e trabalhar esse processo. Acredito que o Cruzeiro tem um objetivo muito claro em termos de Libertadores neste ano e vai ser um clube crescente em termos de futuro. Mas também respeito os nossos oponentes, que fizeram apostas fortes nos últimos anos para brigarem pelo título. Não posso colocar o Cruzeiro com a responsabilidade de jogar pelo título neste momento. Temos que ter os pés no chão, conseguir se classificar à Libertadores. Cada coisa tem seu tempo, temos que seguir trabalhando, porque uma vaga na Libertadores é muito importante para o processo”.
Compromisso com responsabilidade financeira
“Eu tenho uma experiência grande em trabalhar com donos, com SAFs. O Monaco-FRA era uma SAF, estive lá por seis anos, o Olympiacos-GRE e na Ásia os clubes todos tinham donos. O que acontece é que existe uma grande diferença para uma associação. O dono tem a responsabilidade de pagar as contas, pois é a empresa dele, e ele não pode todo ano ficar colando dinheiro. Temos que construir um projeto, com processo que permita que o futebol, aos poucos, seja sustentável. Se os donos colocam dinheiro uma vez, uma segunda e terceira vez, na quarta já vão perceber que estão trabalhando para não ter dinheiro com o futebol. Depois, pode acontecer que eles vendem as SAFs. Essas pessoas que investem dinheiro no futebol, não só o Pedrinho, mas os outros presidentes, tem que ser respeitadas. Respeitar não é gastando de forma descontrolada, temos que controlar os gastos e rentabilizar os nossos ativos. Essa é minha forma de pensar. Tomara que ele (Pedrinho) tenha uma vida longa no Cruzeiro, consiga criar um clube forte e que os torcedores não tenham aquilo que eles viveram nos últimos anos. Gastaram muito e depois ficaram três anos na Segunda Divisão. É isso que eu, como treinador, tenho a responsabilidade de orientar as coisas de forma que o clube seja sustentável e grande, mas de uma forma organizada. Esse também é o objetivo do presidente. Não passa pela cabeça dele estar sempre colocando o dinheiro do trabalho dele no clube”.
Investimento no scouting para lucro futuro
“Eu acho que é possível e, hoje em dia, é um dos modelos de sustentabilidade do futebol. Isso é um projeto. O projeto tem uma cabeça, que é o Pedro Junio e o Pedrinho. Portanto, por aqui vão passar outros treinadores, mas não pode acontecer que no futuro o clube dependa só de uma pessoa do exterior. Tem que depender de seus proprietários, pois são eles que injetam dinheiro e tem que ser os líderes de todo o processo. Hoje, tem o Jardim, que neste momento quer ser competitivo dentro de campo, mas tem a ideia de reestruturar o clube de forma que o clube seja mais fácil de gerir e não dependa somente de uma cabeça para a tomada de decisões. Essas tomadas devem ser feitas por um grupo de pessoas que tenham as melhores decisões em prol do projeto e da equipe”.
Busca por reforços no mercado
“Nós temos o nosso departamento, que hoje está mais profissionalizado em termos de scouting. O nosso departamento de gestão do clube, que é o Pedrinho, Pedro Junio, Pelaipe e eu, antes estava o Mattos, nós procuramos dar soluções que permitem dar competitividade ao elenco, pois nós precisamos de algumas posições para dar competitividade, mas também jogadores que sejam ativos para o clube em um futuro próximo. Hoje em dia, a dificuldade que eu vejo no Cruzeiro é a seguinte: exteriormente, a mensagem é de que o Cruzeiro tinha um dono apaixonado pelo clube, tem uma capacidade financeira e que pagava bem. Os jogadores queriam vir para o Cruzeiro por dinheiro. Nós queremos inverter, fazendo os jogadores vir pela dimensão do Cruzeiro, aquilo que ele representa para o país em termos de futebol. É assim que nós pretendemos trazer jogadores, como já vimos muitos que estão aqui com a gente, que tem esse compromisso com o clube. Em termos de objetivos também, que acrescentem dentro de campo para que o Cruzeiro seja competitivo em todas as competições que participa”.
Chances para os jovens da base, incluindo Baptistella
“A juventude do Cruzeiro tem que ser aproveitada, mas dentro de um trabalho sustentável e de uma progressão equilibrada. O Cruzeiro tem jogadores na Seleção Sub-15 e Sub-17, acredito que no Mundial também terá jogadores do Cruzeiro. Temos muita qualidade na base, mas todos eles vão passar por um processo. Nós sabemos que, neste momento, aqueles jogadores que tem mostrado competências, nós temos escalado. Temos alguns jogadores sub-17 e sub-20 trabalhando com a gente diariamente. Estamos queimando algumas etapas com esses jogadores de forma que eles progridam mais rápido. No Cruzeiro e no Brasil existem muitos talentos, mas, à vezes, a gente valoriza tanto que não orientamos eles da melhor forma. Por isso que, muitas vezes, os ‘craques’ se perdem antes de chegar ao profissional. A gente tem que ter muito cuidado com isso, porque a formação é uma coisa e o profissional é outra”.
Contato com jogadores com quem já trabalhou
“Com certeza, existem alguns jogadores com quem já trabalhei que criei uma certa relação, eles perguntam: ‘o Mister, tem um lugarzinho no Cruzeiro? Uma vaga para mim neste ano?’. Isso é uma questão normal no futebol. Minha ideia é trazer jogadores que se adaptem ao processo do Cruzeiro. O Cruzeiro é um grande clube, está fazendo um grande investimento neste ano, mas tem times como Flamengo, Palmeiras e Botafogo que estão fazendo esse investimento há vários anos. Mas queremos encontrar jogadores competentes e que vistam a camisa do Cruzeiro 100%”.

