Desde o momento em que o Cruzeiro trocou de dono, com Pedro Lourenço se acertando com Ronaldo pela compra da SAF, os pedidos por um fair play financeiro no futebol brasileiro se tornaram mais frequentes. Com as 7 contratações no meio de 2024 e outras 9 realizadas no início de 2025, alguns profissionais da imprensa nacional (leia-se paulista e carioca) mostram-se realmente incomodados. Especialmente após o clube demonstrar força e garantir alguns jogadores de renome e concorridos no mercado.
Se Gabigol, Dudu, Fabrício Bruno e os demais blue caps terão sucesso na Toca da Raposa é impossível saber. Mero exercício de futurologia. Mas ver o Cruzeiro protagonista na janela de transferências despertou fantasmas de gente que queria até mudar a fórmula de disputa do Brasileirão após o bicampeonato consecutivo em 2013 e 2014.
O que doi em muitos adversários não é apenas ver que um Cruzeiro que parecia condenado não morreu. É lembrar que quando os mineiros de azul e cinco estrelas no peito se organizam bem, eles vencem.
Perdem algumas batalhas, faz parte do jogo. Mas não ficam muito tempo de mãos vazias. E mudar o status quo do futebol brasileiro é especialidade da casa, desde 1966, quando as vitórias sobre o Santos de Pelé mostraram que o Torneio Rio-São Paulo não bastava. O Brasil era muito maior.
Voltando ao fair play financeiro, foi um dispositivo implementado no futebol europeu a partir de 2011 para evitar o chamado doping financeiro. Muitos ricaços resolveram brincar de futebol e desistiram dos projetos quando apareciam dificuldades, fazendo com que clubes tradicionais quebrassem. A premissa base é que os clubes devem gastar dentro daquilo que arrecadam. Não ficando portanto a mercê dos seus donos, especialmente no momento de dificuldade.
A ideia é ótima e num cenário ideal, deveria ser replicada em outros continentes. Até considerando um fenômeno mais recente, a multipropriedade de clubes. No Brasil temos o Grupo City que adquiriu a SAF do Bahia e John Textor, proprietário do Botafogo, como exemplos de clubes que possuem clubes irmãos em outros países.
No caso dos cariocas, pairam questionamentos e investigações sobre o uso do clube brasileiro como forma de burlar as regras da UEFA pelo Lyon, na França. O próprio Cruzeiro foi parte de uma holding na era Ronaldo. Mas o Real Valladolid tem um nível pouco competitivo e nunca houve grande intercâmbio entre as instituições.
Se a ideia do fair play financeiro é boa, porque não adotá-la?
A resposta é óbvia, mas complexa. Não se pode querer igualar os clubes em meio a desigualdade. Um fair play financeiro adotado de maneira imediata serviria apenas para beneficiar os clubes que hoje possuem a maior arrecadação. Seria uma ferramenta para limitar os investimentos – e consequente crescimento – de clubes que estejam em situação emergente ou de recuperação, como o caso do Cruzeiro.
Ninguém considera, nem Pedro Lourenço, dono da SAF do Cruzeiro, que o modelo atual é o ideal. Injetar centenas de milhões de reais do próprio patrimônio no clube é uma estratégia para acelerar a reconstrução do Cruzeiro (por mais que o termo esteja hoje absolutamente desgastado).
Pedrinho estará disposto a gastar em todas as janelas de transferência? Certamente não. Por isso o clube precisa aumentar a arrecadação em todas as áreas, especialmente na revelação e venda de jovens atletas da categoria de base. A melhor forma de se “fazer dinheiro” no futebol.
O principal acerto da gestão Pedro Lourenço passa pelo pagamento das dívidas, renegociadas ainda na administração de Ronaldo e que vem sendo honrado religiosamente. O Cruzeiro hoje tem dívidas, mas equacionadas e a vencer, que estão no fluxo de caixa. Não é diferente do que acontece com Flamengo, Palmeiras e qualquer outro clube que esteja fazendo sucesso nos últimos anos. Para quem quis ressignificar o termo cruzeirar como sinônimo de falência, fracassou.
Todos os grandes clubes brasileiros receberam em algum momento ajuda de algum mecenas, aquele patrocinador que montava time forte e pagava altos salários. Sem exceção. E o que incomoda e muito os cruzeirenses é a sensação de que para esta imprensa, fair play financeiro no clube dos outros é refresco. Deveriam se importar muito mais com clubes como o Corinthians, que não paga suas dívidas e segue gastando de forma indiscriminada. Mas o doping financeiro só é visto quando lhes interessa.
Com tempo de adaptação e redistribuição mais justa de todas as receitas de TV, o fair play financeiro será um bom mecanismo para a saúde do futebol brasileiro. Não é tolerável que um clube receba 20 vezes mais que outro para disputar os mesmos 38 jogos de campeonato. A audiência não justifica tamanha discrepância, mas este é assunto para um outro dia. A mensagem de momento é que o cruzeirense pode andar de cabeça erguida, pois não deve nada a ninguém. E incomoda muita gente.

